Por:
Ana Paula Narcizo Carcuchinski: Mestranda PPG Enfermagem – Mestrado profissional da UFCSPA; Enfermeira do Centro Cirúrgico do HCPA.
Se alguém me dissesse há algum tempo que estudar liderança seria, na verdade, um processo de olhar para o espelho e encarar minhas próprias inseguranças, eu provavelmente não acreditaria. A verdade é que se costuma associar “líder” àquela figura intocável, que sabe tudo e nunca titubeia. Mas, vivendo a enfermagem no dia a dia, percebi que a realidade é bem diferente. Liderar não é sobre ocupar um cargo; é sobre servir, inspirar e, acima de tudo, ter a coragem de ser de verdade.
Nessa minha caminhada, teve um livro que me fez enxergar as coisas por outro ângulo: A Coragem para Liderar, da Brené Brown. Foi ali que virei a chave de que a vulnerabilidade não é um sinal de fraqueza. Pelo contrário, ela é a maior expressão de coragem que um enfermeiro pode ter. Pensa comigo: a nossa rotina exige que sejamos ágeis, adaptáveis e apaguemos incêndios o tempo todo. Mas o que acontece quando as coisas fogem do controle? Como nos expressamos? Como nossa postura impacta os outros ao nosso redor?
Há pouco tempo, passei por uma situação muito delicada no plantão: fui bombardeada com uma grande hostilidade por parte de um cirurgião, por causa de um problema que nem sequer estava sob minha responsabilidade. O caminho mais fácil — e o nosso primeiro reflexo — seria confrontar, ser ríspida também ou simplesmente travar. Em vez disso, respirei fundo, engoli o orgulho e decidi desarmar a situação com educação. Olhei para a equipe em sala e fui muito verdadeira: “Doutor, a situação está muito tensa e isso não dependia de mim, mas o foco agora é o paciente. Não sei como resolver isso sozinha, mas precisamos dar um jeito juntos”.
O resultado? Pasmem. Em vez de o clima pesado contaminar todos na sala cirúrgica e gerar um desconforto ainda maior, aquela minha postura de não querer ser a “dona da razão” mudou tudo. A equipe se envolveu na hora, todos trouxeram ideias e resolvemos o problema no coletivo. Ali acendeu uma luz na minha mente: quando tu escolhes respirar fundo e mostrar o teu lado humano — mesmo diante de uma grosseria —, tu crias um espaço seguro para que os outros se protejam do estresse e deem o seu melhor.
A nossa rotina cansa, mexe com o psicológico e faz com que a gente viva um turbilhão de emoções a cada plantão. Ser um líder humano não significa engolir o choro ou ignorar o cansaço, mas sim reconhecer essas emoções. Após a leitura do livro da Brené Brown, comecei a me permitir sentir e compartilhar esse sentimento com o grupo. Com isso, a nossa comunicação mudou da água para o vinho, está ficando mais genuína, mais empática.
A autora também fala muito sobre ter uma visão clara. Na correria do giro de sala, do atraso das cirurgias e das evoluções, é fácil se perder na rotina quase que automatizada. Assim, passei a me perguntar todos os dias: “O que eu realmente valorizo no resultado do meu trabalho?”. Para mim, a resposta é construir um ambiente no qual as pessoas tenham prazer em trabalhar juntas e aquela satisfação impagável de saber que estamos entregando o nosso melhor.
Aprendi que liderança não é um ato solitário. É empoderar quem está ao teu lado, celebrar as pequenas vitórias e entender que um sorriso no corredor, um “obrigada” sincero ou dois minutos de escuta ativa mudam o clima de qualquer plantão. É por isso que escolhi a enfermagem: pelo cuidado com as pessoas.
A liderança começa quando a gente decide olhar para dentro. Afinal, a enfermagem não precisa de chefes impecáveis e distantes, ela precisa de líderes autênticos, que tenham coragem de errar, aprender e liderar com o coração aberto. É uma jornada contínua e cheia de desafios, mas é o único caminho para construirmos, juntos, uma cultura de cuidado mais humana.
REFERÊNCIAS:
Brené Brown. A coragem para liderar: trabalho duro, conversas difíceis e corações cheios. Tradução de Laura Schisler. Rio de Janeiro: BestSeller, 2019.