Por:
Karine Ferreira de Oliveira: Mestranda do PPG em Enfermagem – Mestrado profissional na UFCSPA; Enfermeira; Gerente educacional no Instituto CCIH+ e Founder da Infectosafe.
Ao longo da minha trajetória como enfermeira, compreendi que processos bem definidos são fundamentais, mas que os melhores resultados surgem quando esses processos são conduzidos por lideranças capazes de desenvolver, apoiar e inspirar as pessoas responsáveis por executá-los.
A liderança, especialmente no contexto das instituições de saúde, não pode ser compreendida apenas como uma posição hierárquica ou um conjunto de habilidades técnicas. Para mim, liderar é, antes de tudo, influenciar pessoas de forma consciente, ética e humana, promovendo ambientes mais seguros, colaborativos e orientados ao cuidado.
Acredito em uma liderança empática e servidora, capaz de compreender as necessidades da equipe e reconhecer as complexidades do trabalho. Liderar não é apenas direcionar, mas sustentar pessoas em cenários frequentemente marcados por pressão, incertezas e desgaste emocional. Nesse sentido, a empatia deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a constituir uma habilidade indispensável ao exercício da liderança.
Vejo também a liderança como uma presença de “mansidão no caos”. Em ambientes críticos, como hospitais e serviços de saúde, onde decisões rápidas e precisas são exigidas, o líder precisa ser um ponto de estabilidade. Não se trata de passividade, mas de equilíbrio, da capacidade de manter clareza, serenidade e foco mesmo diante de situações adversas.
Ao mesmo tempo, liderar exige firmeza. Uma boa liderança reconhece o momento de estabelecer direcionamentos claros, alinhar expectativas e fortalecer o compromisso de cada profissional com suas responsabilidades. No entanto, esse exercício da liderança deve ser pautado pela justiça, pela sensibilidade ao contexto e pelo compromisso com o desenvolvimento das pessoas. Oferecer feedbacks, redirecionar condutas e corrigir desvios faz parte do papel do líder, desde que essas ações sejam conduzidas com respeito, propósito educativo e foco na melhoria contínua.
Outro ponto fundamental é compreender que força e vulnerabilidade não são opostas. Uma liderança verdadeiramente forte é aquela que reconhece seus limites, admite erros e se permite aprender. Demonstrar vulnerabilidade, quando realizado com maturidade, fortalece a confiança da equipe e humaniza as relações de trabalho. Mais do que discursos, são os exemplos cotidianos que legitimam a liderança. As equipes observam muito mais aquilo que o líder faz do que aquilo que ele diz.
Por fim, acredito que a liderança nas organizações de saúde deve ser compreendida, acima de tudo, como um instrumento de transformação institucional. Além de administrar processos, o líder molda a cultura organizacional, desenvolve pessoas e inspira comportamentos capazes de transformar a instituição.
Essa transformação não acontece apenas por meio de protocolos, indicadores ou metas, mas pelas atitudes cotidianas que moldam a forma como as pessoas trabalham, se relacionam e enfrentam os desafios da assistência. A cultura de segurança do paciente e a busca pela excelência são construídas diariamente pelas escolhas e pelos exemplos de quem lidera.
Nesse contexto, promover a segurança do paciente deixa de ser apenas uma responsabilidade técnica e passa a representar uma consequência natural de ambientes em que as pessoas são valorizadas, respeitadas e estimuladas a aprender continuamente. Quando existe uma liderança comprometida com esses princípios, processos tornam-se mais consistentes, equipes mais engajadas e o cuidado mais seguro.
Assim, compreendo que o verdadeiro papel do líder é criar condições para que pessoas e organizações evoluam juntas. Cada decisão, cada conversa, cada feedback e cada exemplo deixam marcas que ultrapassam os resultados tangíveis imediatos, influenciando diretamente a experiência dos profissionais, a cultura institucional e, sobretudo, a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes. A qualidade da assistência nunca será superior à qualidade da liderança que sustenta as pessoas responsáveis por oferecê-la.